As cidades são enormes esculturas desenhadas por arquitectos que, bem ou mal, se cruzam com a natureza. Nem sempre acertam no equilíbrio, mas rareiam os casos cada vez mais. Agora, há uma coisa que nas cidades me chateia mais do que o próprio ordenamento da mesma, é a publicidade em qualquer canto e esquina. A publicidade é por si só um meio de engodo, sempre foi. O bom criativo publicitário é o que melhor consegue vender a banha da cobra. Acho até genial a capacidade de alguns, sobretudo os que me vendem a tal banha. Mas não quero aqui discutir a ética ou não da publicidade. Faz parte da nossa vida e assumo isso como um não-assunto. Mas, da mesma maneira que nos cansa os intervalos dos filmes de domingo à tarde, que dá para ir à casa de banho a família toda e ainda sobra tempo, a publicidade espalhada pelas cidades só cria ruído e desrespeita aquilo que de melhor tem, a sua arquitectura. O que realmente diferencia Paris de Nova York, o Porto de Lisboa ou Tabuaço de Tondela, é sem dúvida a sua arquitectura. E os emplastros publicitários não nos deixam ver essa magnificência de como uma aresta se cruza com a outra e de como um prédio se impõe a outro. O excesso da publicidade leva-nos também a ignorá-la, a não ser algumas proezas publicitárias que se destacam, quer pela qualidade gráfica, quer pelo charme, ou até mesmo pelo erotismo das marcas de lingerie. Que faz abrandar mais o trânsito do que qualquer radar de velocidade anunciado. Nas pequenas cidades, como aquela que eu vivo, o problema redobra-se, não sei por culpa de quem, mas julgo que os senhores presidentes de câmara poderiam fazer algo que contrariasse este feito. As cidades são muito mais bonitas nos filmes, porque não têm publicidade e se têm está muito bem enquadrada.